"A ontologia faz o nexo entre o ente e o logos no sentido de espírito. Ontológico é o termo que indica o ser como tal em sua coincidência com a verdade, uma vez que esta é o ser em seu logos. Já ôntico é o termo que designa o ente como uma determinação do ser e de seu logos, i.e., em sua diferença do ser" (Molinaro 2000).
Passou-se a fase de encantamento com a capacidade meramente operacional da Tecnologia da Informação do final do século moribundo: do fazer eficiente como sinônimo de simplesmente executar "qualquer coisa", mas com extrema rapidez. Com a web 2.0, é chegado o momento de entramos definitivamente para era do conhecimento "verdadeiro", mais autêntico, de qualidade, penetrando no significado de todas as coisas, físicas e aquém física. Será preciso coragem e determinação, a começar pela delimitação do domínio da verdade, sem a escusa cínica de Pilatos.
Repassando as teses sobre ontologia publicadas pelo Departamento de Computação da Unb observei tendência de se buscar a origem do termo como explicação para o entendimento da linguagem humana, o que o homem quer expressar em sua vivência, suas necessidades e desejos e, a partir daí, a tentativa de interpretar os diversos significados de um conhecimento ou dado em termos lógicos, se possível lógico-matemáticos, para então estruturá-los num algoritmo computacional que fosse capaz de codificar e transmitir as informações na medida exata do que o usuário-manda-chuva necessite. Seria o sonho do almejado entendimento final entre todo webmaster corporativo e o seu cliente final, seja este um gestor executivo, o diretor de uma escola ou simples usuário pessoal.
Informação "de qualidade" obviamente é dificílimo de definir, pressupõem outros requisitos ou valores, um conteúdo de formação. Formação no sentido de agregar valores a pessoas exatamente como elas são, pessoas, seres. Implica no entendimento do ser em sua totalidade, o ser e o ente, e daí a ontologia. Campo próprio da metafísica. O dado "bruto" deve ser processado, avaliado, contextualizado para só então virar informação. Ora se o homem é um ser cultural, racional, que vive do conhecimento que ele mesmo gera e é gerado, forma e é formado, então não há como se falar de informação senão como informação para o ser, em sua unidade e diferença, objeto da metafísica.
Não seria este o caminho natural de pesquisa? Entretanto os caminhos escolhidos tem sido bem diversos, mais para o ceticismo, quando muito um racionalismo auto-suficiente, destituído de valores, muito menos das noções de transcedentais de Aristóteles. A solução buscada parte do princípio (talvez pragmaticamente plausível mas filosoficamente duvidoso) da falseabilidade de Propper, uma visão positivista que coloca a ciência no seu devido lugar (com suas limitações) mas não delineia avanços concretos
Para não cair no vazio das eternas lacunas do saber, a tese do Sr. Ribeiro (sobre a aplicabilidade de ontologias para o desenvolvimento de softwares, UnB, 1996), por exemplo, optou pelo evolucionismo. O mestrando em ciencias da computação optou por esta solução como a forma mais dsatisfatória de sair do impasse gerado entre o que ele considerou as duas principais correntes da filosofia críticas para compreensão da "verdade": relativismo e o "fundacionismo". Sem entrar no mérito caríssimo da evolução biológica darwiniana - vez que levado pelo paradigma do criticismo-cientificista-dogmático e daí ao lamentável confronto impróprio entre razão e fé, pareceria uma solução satisfatória, não fosse o equívoco gerado pela noção de verdade. O termo fundacionismo , muito utilizado na tese, não foi muito feliz. Pode levar-nos à associação leviana com o fundamentalismo - conforme alardeado pela grande mídia inconsequente, vinculando-a com a radicalidade estúpida dos xiitas ou a crendice ingênua criacionistas americanos. Talvez o termo pudesse ser melhor traduzido em heli-morfismo (conceito de Molinaro), que representa nada menos que de toda a doutrina clássica desde Platão e Aristóteles até Tomaz de Aquino e Hegel, enfim, da própria metafísica.
Por ironia do destino, o termo (heli = sol) que remete ao centro do universo presupõem uma filosofia centrada num núcleo original único e irradiante, justamente o sonhado por Copérnico, autor da lei heliocêntrica do universo, e defendido por Galileu. Mas hoje o que se vê não é mais uma filosofia mas incontáveis doutrinas fragmentárias que desembocam no relativismo caótico. Em vez de conhecimento prevalece a doxa, mera opinião.
A referida tese naturalmente exerce apenas um exercício despretensioso, nas palavras do autor, no capítulo em que resume a base histórico-filosófica do conhecimento e da ontologia. Mas o que se depreende das linhas de pesquisa acadêmica é a preponderância por compreender o conhecimento em termos meramente lógicos, se possível lógico-matemáticos, daí a preferência , por exemplo, na área da linguística e da antropologia, por autores relevantes mas francamente naturalistas, como Marlou-Ponty ou Lévy-Strauss. Pode ser um caminho menos difícil mas certamente oposto ao que vemos propondo vez que despersonaliza o homem, descontextualizando-o de sua cultura (e muito menos seus feitos).
O que propomos é o reavivamento do sentido teleológico da filosofia clássica, particularmente a tradição iniciada por Aristóteles, o grande sistematizador do conhecimento, precursor do método científico e também idealizador da tradição da metafísica iniciada como logos platônico. Mas isso é assunto para outros páginas mais.
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