Sunday, May 06, 2007

Cultura cibernética: os desafios da convergência de informação do paradigma atômico, alienante, ao ôntico, emancipador


Sabemos que muito da tecnologia da informação de que dispomos foi fruto de estudos da Defesa Militar americana, de certa feita oriundos de uma lógica positivista, atomizada, que reflete uma visão de mundo sectária, em constante atrito, direcionando a força das mentes mais geniais para uma ordem de combate. Assim surgiu a internet, fundamentada em sua incrível capacidade de descentralização de envio de pacotes de bits, e continua seus desdobramentos no concorridíssimo mercado de softwares, blogs, videblogs, da Web 2.0. Entrementes, por traz das grandes disputas tecnológicas enaltecidas pela gana de exposição da mídia global, corre interesantíssimos empreendimentos no estudo, desenvolvimento e consolidação da gestão da informação, numa rede de relacionamentos e esforços de padronização e integração de linguagens inédita entre todos os povos do planeta.

Palavras como socialbookmarking, podcasts, compartilhamento interativo, hipertexto, hipermídia, e-learning, a busca de uma semântica universal de documentos da web, mostram parte da perspectiva de busca por confluência de informações e porque não de saberes. Nesse caso temos um exemplo de esforços herculano na tentativa de integrar a babel de linguagens, protocolos e procedimentos em todos os níveis de tecnologia da informação.

Ocorre que as informações pontuais, digitais são, diria pitágoras, como os números discretos, muito úteis mas que por si não dizem nada, a beleza da matemática está na dimensão do continum, na continuidade infinitesimal dos números. O saber analógico, dialógico, vai muito além, é a verdadeira fonte de saber que perpetua e engrandece as civilizações. Entre a troca de dados brutos e a consecução da comunicação efetiva entre dois interlocutores interessados ou uma comunidade dada há um colossal distância a ser percorrida.

As últimas pesquisas na robótica “inteligente” de busca, a linguagem de programação por objetos ou os acordos na padronização de documentos em Xml e outros (padrões de formatação e conteúdo estruturados), estão sendo integrados numa estrutura de processamento, tratamento e compartilhamento de dados baseado em camadas conforme o nível de detalhamento da informação, desde o mais bruto, o mais próximo do hardware, até o mais elevado, o mais próximo possível da linguagem humana. Novas camadas poderão ser agregadas com menor dependência da estrutura tecnológica, liberando o esforço de integração para o que interessa: a convergência de dados estanques, metadados e finalmente as informações de interesse nos mais diferentes ramos do saber.

Algo semelhante, talvez ainda em seus primórdios esta sendo experimentado na web 2.0, em sites de serviços que oferecem aplicativos e soluções em Gestão da Informação de forma integrada, como por exemplo, a junção de blogs e diferentes fontes de mídias em uma base centralizada e interativa, através de consultas ad hoc a bases de informações indexadas e convalidadas a priori, que poderia evoluir para a formação de um verdadeiro consultor on demand no tratamento de problemas lógicos e mesmo metafísicos, dirimindo equívocos, ambigüidades, sofismas, tão em voga na pseudo inteligência moderna hodierna. Tais avanços, aliados aos direcionamentos iniciais do entendimento da linguagem humana promovida pelos filósofos e filólogos da linguagem (eg. Witggestein), podem ser um primeiro passo para a busca do verdadeiro diálogo entre as diversas disciplinas da ciência e mesmo de outros magistérios.

Mas a fonte primeira do saber, amálgama da união entre os povos, continuará a ser dada pela perspectiva última da realidade do ser. Saber verdadeiramente analógico porque a linguagem busca expressar as facetas da realidade sem nunca abarcá-la totalmente. Sem deixar de contribuir cada vez mais para a compreensão de um ser que não é nem unívoco nem equívoco em relação ao Ser, mas analógico (Aristóteles), na medida em que se assemelha e participa da ontogenia do Ser Uno e Trino, sem sê-lo (Maritain).

Para Ratzinger a formação do eu autêntico se dá com a abertura da comunicação dialógica do eu, imperfeito, com a perfeição do tu, que é também a Palavra vivida, de amor – o Verbo em ação, em nossa existência. Para Lévy, essa vivência é a atualização, processo de concretização do potencial latente no ser, que insiste e existe no virtual, em resolução dos problemas, que subsistem e acontecem, no mundo. Toda a vivência-experiência humana poderia estar sendo incorporada em sucessivas camadas de saber, conforme o grau de saber agregado, até a formação de uma como que esfera de saber, de uma blogosfera (saberes instrumentalizados) até a noosfera (pensamento). Não estaríamos então contribuindo, espiritual e logicamente falando, para a formação de uma espiral virtuosa entre virtual e atual rumo ao ansiado ponto ômega de Cristo?

Tendo como instrumental a tecnologia, a cibertécnica pode evoluir, com ocorre com toda tecnociência, para o bem ou para o mal. De um lado, na visão pessimista de um George Orwell, para o individualismo alienante e então, ao controle totalitário dos indivíduos. De outro, muito pelo contrário, para a unificação dos diálogos interdisciplinares, numa visão holística integrativa, sem fronteiras, das realidades virtuais, bem ao estilo de Lévy, contribuindo para uma cultura mais e mais harmoniosa e elucidativa, evoluindo até a conformação de todo o potencial ôntico da humanidade, numa noosfera, conforme a cosmovisão de Teilhard Chardin. O Homem vai selar o seu destino

Brasília, 6 de maio de 2007.

para http://cibercultura21.blogspot.com/